segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Os dias normais - Capitulo I










Fora, a chuva desaba nas ruas tal um berro celeste de enxotamento, expulsando todos os pés do asfalto. Como se ornamentasse e purificasse com seus pingos espessos o território de um eminente avatar. E na busca por abrigo, a comunhão involuntária. Seres que não se conhecem vão comprimindo o vazio sob as marquises e toldos, desembaçando as micas dos relógios e estipulando atrasos, reformulando itinerários, atividades... Chuva forte. Sob a marquise de um edifício em construção Dirceu considera a longevidade da chuva e a lanchonete do outro lado da rua: “Chuva longa e eu quero um café”. Além do mais a fumaça do seu Malboro não está sendo muito gentil com os pulmões da criança ao seu lado. Em quatro lentos saltos alcança o outro lado da rua, sob o toldo da lanchonete as pessoas abrem-lhe caminho. No balcão pede um café e um pastel de frango e finalmente ocupa uma mesa ao fundo; e só então nota que o seu cigarro está apagado além de um pouco molhado. Vai acender outro, mas decide esperar pelo café. E então come o pastel puro pra dar espaço a velha parceria das madrugadas, cigarro e café. Do lado de fora, na esquina, um executivo acena para um taxi protegendo a cabeça com a sua pasta. Logo uma porta se abre e antes de desaparecer auto adentro, ele da uma ultima olhada para as pessoas ao seu redor e do outro lado da rua, mas o que Dirceu realmente não entende é o fato de ter sido justamente a sua figura dentro da lanchonete que veio a chamar a atenção do ilustre senhor que sutilmente franziu a testa e o fixou por alguns segundos antes de partir. Ao que Dirceu da uma tragada e considera a figura de gravata e paletó, no primeiro instante com os olhos e no seguinte de memória, o homem se foi ao contrário das nuvens de chumbo que resolveram intensificar seus açoites pluviais. São seis horas da tarde, fim dá jornada diária, mais um dia em que Dirceu recebe a graça da vida para logo em seguida repassá-la para a usurpadora rotina de labuta exaustiva e mal recompensada. A chuva engrossa, mas ele decide ir embora de qualquer jeito, o tempo é pouco para si. O ponto de ônibus mais próximo fica a pelo menos três quadras dali, e então levanta-se, abotoa o sobretudo, paga a conta e sai pra enfrentar a pesada chuva de fim de tarde esgueirando-se pelos cantos e toldos das lojas e marquises de edifícios. A mistura de exaustão, cansaço e frio resulta numa inesperada e inusitada saudade do seu modesto ap. E só a idéia de imaginar-se diante da porta girando a chave lhe da aquele frio de ânsia na barriga e Dirceu de repente, ali sob a chuva, se apanha cantando um refrão “...o tempo agora mudou, já escureceu, é tão bom estar em casa...”. Mais uma vez a relatividade intervém ao seu favor, pois nem sentiu a demora até o ponto. E para arrematar chega ao mesmo tempo que o seu ônibus. “Nem tudo está perdido”. Dirceu consegue um assento e começa a ficar um tanto desconfiado, “o que será?”. Mas logo procura afastar esse mantra de desalento. A chuva não para e nem da sinais de que vai, Dirceu deixa o olhar saltar à vontade na selva de cimento armado, e ao cabo de um bom numero de curvas bruscas do coletivo, desce pra cumprir a ultima e breve distancia que o separa do sonho da fechadura. Acena para o porteiro e sobe as escadas, e já é possível perceber o semblante de alivio subjugar o de exaustão e lhe aflorar no rosto. Agora o sonho da fechadura esta realizado, o escuro corredor que antecede a sua porta ficou só outra vez e o modesto ap recebe as boas vindas da luz artificial, bem como a presença do seu simplório morador; sete e dez.

2 comentários:

Vina TorTO disse...

Querido Edizero,

Foi interessante a exposição deste texto, principalmente quando percebemos que coincidente ou não, ele faz parte de uma natureza de segunda-feira, ou seja, do dia em que foi postado. Falo de segunda-feira pois você vai trazendo de forma bela a descrição dos comportamentos humanos em meio a uma chuva, a forma como cada olhar se refaz diante dos contextos, os gestos, as reações, enfim, tudo que nós temos e presenciamos em um "simples" cotidiano, mas que nem percebemos essa pluralidade mágica de diversos nós que trazemos em pedaços e mais pedaços de cada momento que vivemos em nosso aparentemente homogêneo dia a dia.

Gosto muito de suas produções pois seja em textos como este ou em suas músicas, eu sinto que elas conseguem refletir aspectos aparentemente desconhecidos da nossa rotina mas que você não só visualiza, assim como cria uma vida em todos esses aspactos. Ou seja, você revela o "não-visto", o "simples", de forma clara, poética e impactante.

Vina TorTO

www.movimentotorto.com

Artiles disse...

O nome Dirceu, já predispõe uma natural sensação de posse do personagem por parte do leitor... Por enquanto, só é possível falar a respeito do autor.. Dirceu é recém-nascido, mas o autor, com sua descrição acinzentada, encharcada e esfumaçada dos acontecimentos, começa a construir o personagem como um ser naturalmente reflexivo e absolutamente inquieto...
De qualquer forma, creio que nos próximos capítulos acabaremos por encontrar critérios e perspectivas que façam com que cada um se sinta efetivamente representado nesse personagem e veja nele um pouco "De seu"
Aguardando novos capítulos...