Sempre relacionamos amadurecer com a idéia de agir sensatamente, como adulto, ante os desafios da vida. Discordo e veementemente. Amadurecer não é isso, não. Amadurecer é sintonizar-se com a vida, é entender que nenhum instante é igual ao outro e que cada situação nos inspira uma reação peculiar. Assim, podemos agir como criança aqui, como adolescente ali e como adulto em determinadas situações (porque os adultos são os mais chatos mesmo). Amadurecer é quebrar os nossos laços com inúmeros padrões pré-programados. Amadurecer é, principalmente, ser capaz de ver com os próprios olhos. Sempre! É agir e reagir de acordo com os nossos próprios valores e não sob os critérios das expectativas alheias. Todos dizem, em uníssono, não gostar de falsidade, MAS a maioria se frustra ante reações distintas das esperadas quando alguém não usa as palavras e reações previstas. Existem "obrigados" e elogios falsos também. Não! Ser seguidor do previsível não é amadurecer. A amadurecência se apóia nos princípios da espontaneidade e imprevisibilidade da vida, no respeito às diferenças interpessoais. Amadurecer é suportar sanções sociais em nome das próprias concepções. É aceitar o tapa na cara de idéias contrarias às suas e deixar o duelo ideológico se instalar no seu entendimento até que a resposta mais sensata venha à tona mesmo que esta não seja a que te agrada. A amadurecência é um estado que se conquista e que sobretudo precisa ser mantido. Podemos ter sido pessoas maduras no passado e hoje não o sermos mais! Por que? Porque podemos desleixar e não limpar mais as portas da nossa percepção. Porque podemos desaprender valores que não colocamos mais em prática e ai começamos a recorrer a métodos de sobrevivência porque agora somos pobres infelizes que perderam o tato ludibriados pela vertigem do fulgor de algum mérito paralisante. Assim, é possível amadurecer varias vezes numa mesma vida! Ou nunca amadurecer! Ou ser sempre maduro!
terça-feira, 10 de maio de 2011
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
A desventura bem aventurada de ser assim
Porque pra mim o som sempre foi salvação! E por mais que eu canse, desabe ou morra ao fim de cada dia, o meu destino não me deixa em paz. E no horizonte de cada ressaca etílica ou moral, uma melodia se projeta e me ergue para mais um combate. Na minha voz pulsa um coração soterrado de paixões e quando estou cantando e olhando pra você, saiba que eu estou tentando te despir, tentando rasgar as suas vestes moralistas, hipócritas ou qualquer outro invólucro que te priva de crescer e transcender os limites abissais, estou tentando alcançar o seu âmago, a sua essência genuína e trazê-la à tona para que ela possa respirar livremente e na superfície da pele. Há um desespero intimo em meu cantar, é como medir forças com o mal e as vezes com o bem, porque há também sentimentos perversos em mim. E quando eu viro o ultimo copo de whisky da noite e jogo o violão nas costas, nas mórbidas ruas desertas em que deixo os meus passos, anjos e demônios duelam sussurros nos meus ouvidos para meu deleite que posso assim provar da melhor mistura e espíritos antigos, irmãos meus de outras vidas em outras tabernas, se personificam no vento frio da madrugada para acariciar o meu rosto em sinal de saudação. E em certos transes musicais eu sinto o meu corpo adormecer na certeza de que meus dedos não mais são guiados por mim e súbito estou ao lado do meu próprio corpo assistindo o espasmo irado de algum trovador de outras eras. E o eterno desencontro é a força motriz dessa aventura. Deus e o Diabo, antes de seguirem carreira solo, compuseram algumas coisas juntos como a paixão, subproduto do amor, e portanto mais forte, e o som que se dilata nas canções, pois o mal existe pra pôr o universo em movimento. E eu existo para o sacrifício que celebra a vida. E o meu caos tem seus encantos também.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Ritos de passagem

Nunca fui muito de crer no tempo como remédio, nunca achei que o tempo pudesse mudar coisa alguma numa convicção, o tempo em si, não. Mas acontece que o tempo tem sua sabedoria mesmo. O tempo é aquela distancia que o pintor toma quando quer ter a panorâmica de sua obra. O tempo ri dos apressados, o tempo é um sábio que se cala ante a histeria imediatista de muitos de nós. E é na passagem do tempo que se configuram os ritos de iniciação. Mas o tempo também tem sua agenda, suas horas marcadas e é ai que as vezes a confusão se instala pois muitos de nós não consegue precisar a distinção entre dar tempo ao tempo (quando estamos confusos ou o clima é desfavorável) e agir à hora certa quando as configurações astrais estão ao seu favor. A lógica da espera não é esperar anacronicamente, indefinidamente. A sabia espera é aquela que consegue visualizar a agenda do tempo e ver que naturalmente há coisas que são para o próximo instante, umas que são para amanhã, outras para daqui alguns anos e algumas que não conseguiram marcar hora com o Cronus ainda.
Aprender a lidar com o tempo é saber colher o instante maduro, nem verde, nem tardiamente, desfrutando assim dos ritos de passagem, amadurêcencia.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Os dias normais - Capitulo I

Fora, a chuva desaba nas ruas tal um berro celeste de enxotamento, expulsando todos os pés do asfalto. Como se ornamentasse e purificasse com seus pingos espessos o território de um eminente avatar. E na busca por abrigo, a comunhão involuntária. Seres que não se conhecem vão comprimindo o vazio sob as marquises e toldos, desembaçando as micas dos relógios e estipulando atrasos, reformulando itinerários, atividades... Chuva forte. Sob a marquise de um edifício em construção Dirceu considera a longevidade da chuva e a lanchonete do outro lado da rua: “Chuva longa e eu quero um café”. Além do mais a fumaça do seu Malboro não está sendo muito gentil com os pulmões da criança ao seu lado. Em quatro lentos saltos alcança o outro lado da rua, sob o toldo da lanchonete as pessoas abrem-lhe caminho. No balcão pede um café e um pastel de frango e finalmente ocupa uma mesa ao fundo; e só então nota que o seu cigarro está apagado além de um pouco molhado. Vai acender outro, mas decide esperar pelo café. E então come o pastel puro pra dar espaço a velha parceria das madrugadas, cigarro e café. Do lado de fora, na esquina, um executivo acena para um taxi protegendo a cabeça com a sua pasta. Logo uma porta se abre e antes de desaparecer auto adentro, ele da uma ultima olhada para as pessoas ao seu redor e do outro lado da rua, mas o que Dirceu realmente não entende é o fato de ter sido justamente a sua figura dentro da lanchonete que veio a chamar a atenção do ilustre senhor que sutilmente franziu a testa e o fixou por alguns segundos antes de partir. Ao que Dirceu da uma tragada e considera a figura de gravata e paletó, no primeiro instante com os olhos e no seguinte de memória, o homem se foi ao contrário das nuvens de chumbo que resolveram intensificar seus açoites pluviais. São seis horas da tarde, fim dá jornada diária, mais um dia em que Dirceu recebe a graça da vida para logo em seguida repassá-la para a usurpadora rotina de labuta exaustiva e mal recompensada. A chuva engrossa, mas ele decide ir embora de qualquer jeito, o tempo é pouco para si. O ponto de ônibus mais próximo fica a pelo menos três quadras dali, e então levanta-se, abotoa o sobretudo, paga a conta e sai pra enfrentar a pesada chuva de fim de tarde esgueirando-se pelos cantos e toldos das lojas e marquises de edifícios. A mistura de exaustão, cansaço e frio resulta numa inesperada e inusitada saudade do seu modesto ap. E só a idéia de imaginar-se diante da porta girando a chave lhe da aquele frio de ânsia na barriga e Dirceu de repente, ali sob a chuva, se apanha cantando um refrão “...o tempo agora mudou, já escureceu, é tão bom estar em casa...”. Mais uma vez a relatividade intervém ao seu favor, pois nem sentiu a demora até o ponto. E para arrematar chega ao mesmo tempo que o seu ônibus. “Nem tudo está perdido”. Dirceu consegue um assento e começa a ficar um tanto desconfiado, “o que será?”. Mas logo procura afastar esse mantra de desalento. A chuva não para e nem da sinais de que vai, Dirceu deixa o olhar saltar à vontade na selva de cimento armado, e ao cabo de um bom numero de curvas bruscas do coletivo, desce pra cumprir a ultima e breve distancia que o separa do sonho da fechadura. Acena para o porteiro e sobe as escadas, e já é possível perceber o semblante de alivio subjugar o de exaustão e lhe aflorar no rosto. Agora o sonho da fechadura esta realizado, o escuro corredor que antecede a sua porta ficou só outra vez e o modesto ap recebe as boas vindas da luz artificial, bem como a presença do seu simplório morador; sete e dez.
