terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

















A desventura bem aventurada de ser assim

Porque pra mim o som sempre foi salvação! E por mais que eu canse, desabe ou morra ao fim de cada dia, o meu destino não me deixa em paz. E no horizonte de cada ressaca etílica ou moral, uma melodia se projeta e me ergue para mais um combate. Na minha voz pulsa um coração soterrado de paixões e quando estou cantando e olhando pra você, saiba que eu estou tentando te despir, tentando rasgar as suas vestes moralistas, hipócritas ou qualquer outro invólucro que te priva de crescer e transcender os limites abissais, estou tentando alcançar o seu âmago, a sua essência genuína e trazê-la à tona para que ela possa respirar livremente e na superfície da pele. Há um desespero intimo em meu cantar, é como medir forças com o mal e as vezes com o bem, porque há também sentimentos perversos em mim. E quando eu viro o ultimo copo de whisky da noite e jogo o violão nas costas, nas mórbidas ruas desertas em que deixo os meus passos, anjos e demônios duelam sussurros nos meus ouvidos para meu deleite que posso assim provar da melhor mistura e espíritos antigos, irmãos meus de outras vidas em outras tabernas, se personificam no vento frio da madrugada para acariciar o meu rosto em sinal de saudação. E em certos transes musicais eu sinto o meu corpo adormecer na certeza de que meus dedos não mais são guiados por mim e súbito estou ao lado do meu próprio corpo assistindo o espasmo irado de algum trovador de outras eras. E o eterno desencontro é a força motriz dessa aventura. Deus e o Diabo, antes de seguirem carreira solo, compuseram algumas coisas juntos como a paixão, subproduto do amor, e portanto mais forte, e o som que se dilata nas canções, pois o mal existe pra pôr o universo em movimento. E eu existo para o sacrifício que celebra a vida. E o meu caos tem seus encantos também.

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